Notas de rodapé (página 23 de 29)

Lemos, gostamos (ou não) e indicamos (ou não). Aqui, colocamos nossas impressões sobre livros que, de alguma forma, nos marcaram. Tem opinião, mas não tem spoiler!

[Resenha] História do Novo Sobrenome

Arrebatadora. Apaixonante. Empolgante. Emocionante. É longa a lista de adjetivos que já foram usados para definir História do Novo Sobrenome, o segundo romance da “tetralogia napolitana”, da italiana Elena Ferrante (a resenha do primeiro volume, A Amiga Genial, está aqui).

A escrita de Ferrante é tudo isso e, arrisco dizer, até mais um pouco. Chega a ser difícil explicar tamanha empolgação. Por que Elena Ferrante escreve algo diferente de tudo o que você já leu se, no fim da contas, ela retrata uma história banal, de duas amigas marcadas pela pobreza e pelo destino opressor reservado principalmente às mulheres em Nápoles nos anos 50?

Confesso que não tenho uma resposta definitiva para essa questão, mas o fato é que a escrita de Ferrante tem uma força interna que nos prende ao livro de uma forma que poucos autores conseguem. Uma amiga comentou comigo que começou a guardar o livro em casa, em vez de levá-lo no caminho para o trabalho, para fazer com que a leitura durasse mais tempo. Ferrante é paixão.

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[Resenha] Pedro Páramo

… se eu escutava somente o silêncio, era porque ainda não estava acostumado ao silêncio; talvez porque minha cabeça vinha cheia de ruídos e vozes.

Assim, cheio de ruídos e vozes, é o romance Pedro Páramo, do escritor mexicano Juan Rulfo. Essa frase do personagem Juan Preciado sintetiza o ponto forte desta obra que, nas palavras de Gabriel García Márquez, é “a mais bela novela já escrita em língua castelhana”.

Rulfo costura múltiplas narrativas para construir a história do homem estampado no título do livro. A cada capítulo, um novo personagem, uma nova voz e um novo tempo. Aos leitores, uma dica: é preciso persistir e não se deixar vencer pela confusão inicial causada pela intensa troca de narradores, pois isso é justamente o que distingue a escrita do autor mexicano. Quando todos os pontos começam a se ligar e fazer sentido, o esforço para superar as primeiras páginas é recompensado.

A história começa com a busca de Juan Preciado pelo pai que não conheceu: Pedro Páramo. Ele decide ir até Comala depois que a mãe, em seu leito de morte, desabafa anos de ressentimento, incentivando-o a procurar o pai não para pedir nada, mas sim para exigir o que lhe era devido por direito: “cobre caro pelo esquecimento em que ele nos colocou, meu filho”.

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[Resenha] Trilogia de Juan Pablo Villalobos

Não são apenas títulos curiosos e capas bonitas. A trilogia do escritor Juan Pablo Villalobos – composta por Festa no Covil, Se Vivêssemos em um Lugar Normal e Te Vendo um Cachorro, propõe uma viagem ao México – por meio de narrativas nada óbvias e uma escrita bastante original.

O primeiro volume da série, Festa no Covil, foi um grande sucesso. O tema não é nenhuma novidade quando se fala de literatura ou outras produções artísticas latino-americanas. Quantos filmes, séries, livros-reportagem ou romances você já viu sobre o narcotráfico? Pois é, existem vários.

Villalobos se destaca pela abordagem que escolheu. O livro é narrado por uma criança, Tochtli, filho de Yolcaut, um chefão do tráfico que oscila entre a vontade de proteger o menino da crueldade de seu meio e a necessidade de formar um herdeiro para aquele “império”. O olhar inocente de Tochtli dá aos fatos mais brutais um aspecto ao mesmo tempo cômico e assustador:

Uma das coisas que aprendi com Yolcaut é que às vezes as pessoas não viram cadáveres com uma bala. Às vezes precisam de três balas ou até de catorze. Tudo depende de onde você atira. Se você atira duas balas no cérebro, com certeza elas morrem. Mas você pode atirar até mil vezes no cabelo que não acontece nada, apesar de que deve ser bem divertido de ver. Eu sei dessas coisas por causa de um jogo que eu e o Yolcaut costumamos jogar. O jogo é de perguntas e respostas. Um fala uma quantidade de tiros e uma parte do corpo, e o outro responde: vivo, cadáver ou diagnóstico reservado.

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[Resenha] Mudança

Incitado por um editor indiano a escrever “sobre as grandes transformações ocorridas na China ao longo das últimas três décadas”, o autor chinês Mo Yan descartou o tema, em um primeiro momento, por ser abrangente demais. A insistência do editor, que chegou em um momento a lhe dizer que ele poderia então escrever o que quisesse, fez com que Mo não conseguisse mais abandonar a ideia.

De fato, a transição da China de um país essencialmente rural para uma economia de mercado, com as profundas transformações sociais que marcaram o país nas últimas décadas, é assunto que domina prateleiras e mais prateleiras das livrarias.

Mesmo assim, em apenas 125 páginas, Mo Yan deu conta do recado. Mudança é pequeno livro sobre grandes temas, abordados sutilmente. Por meio de episódios aparentemente banais de sua infância e adolescência, Mo fala da vida no campo, da transição das aldeias para as cidades, da influência cotidiana do Partido Comunista na vida social e de um país em ebulição.

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[Resenha] Noites de Alface

Nada é banal quando se observa com atenção. Até a rotina mais morna de uma pacata vizinhança pode esconder fatos dignos de um romance. Vanessa Barbara provou isso em Noites de Alface, um livro que corrobora a presença da autora na lista dos 20 melhores jovens escritores brasileiros da revista literária Granta.

Otto é um viúvo solitário e ranzinza, que sofre de insônia e leva os dias em uma profunda apatia desde a morte repentina da esposa, Ada. As singelas recordações dos hábitos simples que cultivou com a companheira, em mais de cinquenta anos de casamento, fazem com que nós, leitores, relevemos toda sua casmurrice. A ligação entre Ada e Otto é cativante.

Nada no ar parado o fazia lembrar-se de Ada; era o vento que a trazia de volta, agitada, puxando-a pela mão nos dias de chuva. Otto levantou-se e abriu a janela da sala. A corrente de ar ficou mais forte. Achava desconcertante a esposa ter desaparecido assim, de uma hora pra outra, pois ela vivia na segunda-feira, e na terça já não existia mais. Assim, de repente. (…) O sofá estava espaçoso demais, não havia mais vestidos ou pentes nem creme hidratante com aroma de pepino.

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