Não são apenas títulos curiosos e capas bonitas. A trilogia do escritor Juan Pablo Villalobos – composta por Festa no Covil, Se Vivêssemos em um Lugar Normal e Te Vendo um Cachorro, propõe uma viagem ao México – por meio de narrativas nada óbvias e uma escrita bastante original.

O primeiro volume da série, Festa no Covil, foi um grande sucesso. O tema não é nenhuma novidade quando se fala de literatura ou outras produções artísticas latino-americanas. Quantos filmes, séries, livros-reportagem ou romances você já viu sobre o narcotráfico? Pois é, existem vários.

Villalobos se destaca pela abordagem que escolheu. O livro é narrado por uma criança, Tochtli, filho de Yolcaut, um chefão do tráfico que oscila entre a vontade de proteger o menino da crueldade de seu meio e a necessidade de formar um herdeiro para aquele “império”. O olhar inocente de Tochtli dá aos fatos mais brutais um aspecto ao mesmo tempo cômico e assustador:

Uma das coisas que aprendi com Yolcaut é que às vezes as pessoas não viram cadáveres com uma bala. Às vezes precisam de três balas ou até de catorze. Tudo depende de onde você atira. Se você atira duas balas no cérebro, com certeza elas morrem. Mas você pode atirar até mil vezes no cabelo que não acontece nada, apesar de que deve ser bem divertido de ver. Eu sei dessas coisas por causa de um jogo que eu e o Yolcaut costumamos jogar. O jogo é de perguntas e respostas. Um fala uma quantidade de tiros e uma parte do corpo, e o outro responde: vivo, cadáver ou diagnóstico reservado.

O menino apresenta ao leitor o universo que o rodeia, desde o “palácio” em que vive isolado, passando pelo México sangrento que aparece no noticiário até a Libéria, para onde ele viaja a fim de realizar um de seus desejos megalomaníacos incentivados pelo pai: conseguir um hipopótamo anão para criar como animal de estimação.

Tochtli descreve todas essas realidades misturando seu vocabulário rebuscado às lições ensinadas pelo seu preceptor, um egresso da esquerda esclarecida e culta, contratado por Yolcaut. As conclusões do menino arrancam do leitor aquela risada nervosa, típica de quem sabe estar achando graça de uma verdade tão absurda que quisera fosse mentira.

Fiz uma pesquisa sobre o país Libéria. Segundo a enciclopédia, o país Libéria foi fundado no século XIX por pessoas que antes disso tinham trabalhado como escravos no país Estados Unidos. Eram pessoas africanas americanas. Seus patrões as deixaram em liberdade e elas foram morar na África. O problema é que outras pessoas já moravam ali, as pessoas africanas. Aí as pessoas africanas americanas fizeram o governo do país Libéria e as pessoas africanas, não. Por isso elas vivem em guerra e estão sempre se matando. E agora mais ou menos todos estão morrendo de fome.

Parece que o país Libéria é um país nefasto. O México também é um país nefasto. É um país tão nefasto que você não pode conseguir um hipopótamo anão da Libéria. O nome disso na verdade é ser de terceiro mundo.

O segundo livro da trilogia, Se Vivêssemos em um Lugar Normal explora o mesmo estilo irônico, não mais pela visão de uma criança, mas sim de um adolescente de uma família pobre que se acha de classe média:

Meu pai dizia a mesma coisa quando, para corroborar as mentiras de minha mãe, eu perguntava a ele se éramos pobres ou de classe média. Ele me dizia que o dinheiro não importava, que o importante era a dignidade. Confirmado: éramos pobres.

A partir das disputas cotidianas durante o jantar pelas quesadillas (prato típico mexicano), cuja fartura dependia da montanha-russa inflacionária dos anos 80 no México, o jovem Orestes desenrola uma narrativa, com ares de crônica, sobre as desigualdades sociais. Por que ele não pode conhecer outros lugares como seus colegas que voltam das férias falando sobre a limpeza impecável das ruas nos Estados Unidos? Por que ele deseja que seus irmãos sumam para que sobrem mais quesadillas ? Por que a pequena família do seu vizinho Jarek vive em uma mansão e ele, os pais e os irmãos, bem mais numerosos, moram em uma casa que mais parece uma caixa de sapato?

Jarek nunca tinha pensado em fugir de casa, por mais que na tevê dissessem que os ricos também choravam, para mim eles estavam muito à vontade, muito felizes, muito satisfeitos com a exclusividade de sua alegria.

Nos dois primeiros volumes da série, o leitor assiste à formação do caráter dos personagens. Tanto no caso de Tochtli quanto na história de Orestes, as expectativas não são as mais otimistas. A violência e a desigualdade de oportunidades minam, pouco a pouco, a trajetória dos dois jovens mexicanos e anunciam um futuro nefasto, como diria Tochtli com seu vocabulário precocemente sofisticado.

Já no terceiro livro da trilogia, Te Vendo um Cachorro, o personagem principal, Teo, não tem mais esses dilemas sobre quais caminhos seguir. Aos 78 anos, ele está no fim de uma vida decadente. Em sua juventude, sonhou com a posteridade da carreira artística, mas acabou em uma taqueria vendendo tacos recheados com carne de cachorro.

Comecei a andar para cima e para baixo carregando o bendito caderno, que me rendeu fama de artista e de esquisito na vizinhança. Por algum tempo foi até uma atividade lucrativa: eu fazia retrato de namoradas por encomenda, trocava desenhos por bolinhas de gude, no início, e mais tarde pelos primeiros cigarros. Até que um dia os vizinhos enjoaram do artista, meu caderno perdeu sua aura e acabou se transformando em uma carga funesta.

Teo mora em um prédio em ruínas, cheio de anciãos fofoqueiros e metidos a cultos, aos quais dedica toda sua casmurrice e desprezo. A língua afiada do personagem serve a Villalobos como uma voz crítica à superficialidade das relações familiares, à precariedade das instituições mexicanas e aos esnobismos culturais, típicos de sociedades desiguais que usam o conhecimento para segregar e não para evoluir.

A velhice é retratada sem rodeios e o tema da memória perpassa a maioria dos episódios. Teo é o exemplo vivo de como ela pode ser cruel. Percebam a ironia: ele, que sonhava com um futuro artístico grandioso, vai acabar seus dias matando baratas no apartamento com um exemplar pesadíssimo da Teoria Estética de Adorno. Nada de que a humanidade vá se lembrar.

… não existe posteridade para todos, a memória do mundo não seria suficiente pra lembrar de todos nós, não haveria ruas suficientes para nos homenagear, nem parques pras nossas estátuas, nem cineastas pra filmar documentários, nem espaço pra túmulos na Rotatória das Pessoas Ilustres. A vida precisa selecionar. E nisso ela é implacável.

Se a angústia nos dois primeiros livros da série é ver Tochtli e Orestes com um futuro nebuloso, no último livro da trilogia a aflição vem da certeza desse destino infeliz. As desilusões de Teo são a prova de que o fracasso é cíclico.

O bom humor e a escrita leve de Villalobos mascaram uma leitura inquietante. Ao escolher três olhares de maturidades diferentes para apresentar o mesmo lugar, o México, o autor alerta para o perigo de uma sociedade inerte. Quando o futuro desastroso é fácil de adivinhar, é porque é hora de parar de achar que o real é surreal. Afinal, o ditado “rir pra não chorar” nunca pode ser a única saída.

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
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