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Lemos, gostamos (ou não) e indicamos (ou não). Aqui, colocamos nossas impressões sobre livros que, de alguma forma, nos marcaram. Tem opinião, mas não tem spoiler!

[Resenha] O Livro Amarelo do Terminal

Borrar as fronteiras entre o jornalismo e a literatura não é tarefa fácil. Há sempre o risco de se avançar demais em um dos lados e comprometer a outra parte da equação: a informação ou a narrativa. Em O Livro Amarelo do Terminal, no entanto, Vanessa Barbara não faz concessões.

Para escrever esta reportagem, Barbara passou seis meses percorrendo os corredores, passarelas e portões do Tietê, ainda como estudante de jornalismo. Levantou artigos sobre o período de construção do terminal, as idas e vindas da obra, as reformas antes mesmo da inauguração. Falou das estatísticas oficiais que atraem atenção dos portais de notícias nas vésperas de feriado. E encontrou também personagens que parecem saídos da ficção. Minha parte preferida são as boas horas em que ela passou ao lado das moças do balcão de informação, uma área que Barbara também parece ter apreciado muito.

“Onde é que eu posso comprar um teco de pimenta?”, um homem perguntou para Silvana, atendente do local. “Eles pensam que a gente tem resposta para tudo”. Como no dia em que chegou uma velhinha calma, perguntando:
– Moça, onde é que eu faço inscrição para ir pro Iraque?
-… Desculpe?
– Pro Iraque. Eu quero ir pra guerra, buscar o meu filho.
– Ahn… senhora, nós não oferecemos esse tipo de serviço.

Se as moças do balcão de informação não sabem dizer onde se alistar para o Iraque, pode ter certeza que elas poderão te ajudar se o objetivo for saber onde fica o Shopping D, qual ônibus vai para Jaguariúna ou como achar o Pelé na estação.

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[Resenha] Galveias

Com um enredo embalado pelo cotidiano e uma prosa que flerta com a poesia, o romance Galveias, do escritor português José Luís Peixoto, extrai beleza e sabedoria da simplicidade de um povoado esquecido no Alentejo, no interior profundo de Portugal.

O livro começa com um fato extraordinário. A pequena Galveias é acordada por estrondos misteriosos, vindos do espaço, em uma noite de janeiro de 1984. Uma “coisa sem nome” atinge a Terra e deixa na cidadezinha uma cratera que exala o cheiro forte de enxofre.

Ninguém tinha respostas. Do Queimado à Amendoeira, no Alto da Praça, na Deveza, na Fonte, as ruas estavam cheias de gente a expulsar de dentro de si o susto. Sob o trauma dos estrondos e o cheiro a enxofre, falavam sem parar. Perdiam o sentido, mas não perdiam a oportunidade. (…) Quando parecia que estavam compenetrados, não estavam realmente a ouvir, estavam só à espera de vez, à espera de um bocadinho vago para entrarem com o que tinham a dizer.

Em meio a essa afobação, é apresentado o povo galveense cujas histórias se desenrolam nas próximas páginas. São diversos personagens: o padre bêbado, o único médico da cidade, a prostituta padeira, a professora recém-chegada, os irmãos que não se falam há décadas, entre outros. Até os cachorros têm papel importante nos causos que afetam a vida no vilarejo! Cada capítulo dá conta de uma anedota que, em algum momento, desemboca na noite fatídica em que o cheiro de enxofre impregnou Galveias.

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[Resenha] As Correções

Jonathan Franzen foi reverenciado na capa da revista norte-americana Time como o grande romancista americano por Liberdade, mas foi com As Correções que se destacou na cena literária mundial. Este é um livro por vezes cômico, mas ao mesmo tempo delicado e repleto de questões morais sobre uma das doenças mais assustadoras e onipresentes do século XXI: o mal de Alzheimer. É também um dos meus livros preferidos.

Como quase toda ficção de Franzen, As Correções traz consigo forte carga autobiográfica. O livro retrata a saga de uma familia americana comum , habitante dos subúrbios da pequena cidade de St. Jude (os pais de Franzen são de Saint Louis). As crianças, hoje adultos, foram embora e estão espalhadas pelos Estados Unidos. Deixaram para trás Alfred, o pai, que está aposentado há alguns anos da empresa em que trabalhou quase a vida inteira, e precisa conseguir conviver com Enid, a esposa de gênio forte, que conta até os centavos e nunca deixa os comentários desagradáveis de lado. As tardes Em St. Jude são carregadas.

Por toda a casa ressoava o toque de uma campainha de alarme que só Alfred e Enid conseguiam ouvir claramente. Era o alarme da ansiedade.

Enid se irrita porque precisa checar, de quase cinco em cinco minutos, o que Alfred está fazendo. Se antes ele conseguia pintar o sofá de vime em algumas horas, agora o trabalho poderia demorar mais de um mês – e mesmo assim só as pernas do móvel estavam prontas. Alfred argumenta que é tão delicado lixar a palha quando descascar um morango, ou que o pincel tinha secado, por isso o trabalho demora tanto. As evidências de que algo está errado se amontoam, mas todos evitam olhar. 

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[Resenha] A Morte em Veneza e Tonio Kröger

Começo esta resenha com a esperança de que ela inaugure uma longa série dedicada a Thomas Mann. Conheci o escritor alemão graças à belíssima coleção que a Companhia das Letras começou em 2015, com Doutor Fausto e A Morte em Veneza & Tonio Kröger, e seguiu, neste ano, com Os Buddenbrook.

Doutor Fausto e Os Buddenbrook são obras-primas do alemão, que mostrou todo seu fôlego narrativo nesses clássicos de mais de 600 páginas. Como não havia lido nada de Mann ainda, resolvi começar com uma leitura menos densa: A Morte em Veneza & Tonio Kröger. Seria uma espécie de teste para ver se eu poderia comprar, sem remorso de consumismo compulsivo, o restante da coleção. Digamos que o alemão passou com louvor. Que venham os outros livros para minha estante! 🙂

A primeira novela, A Morte em Veneza, conta a história de Gustav von Aschenbach, um célebre escritor obcecado pela perfeição em seu trabalho. Alcançou a fama ainda cedo, mas, nem por isso, superestimava seu talento. Tinha a consciência de que seus feitos eram resultado de autocontrole e muita disciplina, como vemos neste trecho:

Verdade é que desde a sua juventude Aschenbach considerara a pouca satisfação consigo mesmo a essência e íntima natureza do talento. Por causa dela, tinha o hábito de reprimir e temperar o sentimento, sabendo que este tende a se contentar com a aproximação feliz e a perfeição parcial.

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[Resenha] O Sol É Para Todos

Atire em todos os que você quiser, se puder acertá-los, mas lembre-se que é um pecado matar uma cotovia.

To Kill a Mockingbird, o título original do livro da americana Harper Lee, foi traduzido em português para o insosso O Sol É Para Todos. Perdeu-se muito do simbolismo original, já que a cotovia é um das metáforas do livro para a inocência, ou a perda dela, o tema central de um dos livros mais populares dos últimos 50 anos.

Quando recebe a recomendação acima de seu pai, Scout, a narradora do livro, uma menina alegre, esperta e indagadora de seis anos,  se dá conta de que esta é a primeira vez que o ouviu falar em pecado. Atticus Finch, seu pai, não é um cidadão comum de Maycomb, a pequena cidade do Alabama onde se passa a história. Ao contrário da maioria dos habitantes do vilarejo, Atticus Finch é um homem pouco dado a convicções religiosas, mas tem fortes regras morais. E uma delas é que prejudicar, de qualquer forma, alguém mais fraco ou com menos poder de defesa é um pecado sem expiação.

Atticus é diferente dos demais por muitos outros fatores. Em uma das passagens mais engraçadas (fofas mesmo, eu diria, e o livro é ótimo por ser recheado delas) de O Sol é para Todos, Scout e Jem, seu irmão mais velho, se questionam sobre as habilidades do pai. Ele não é um herói comum. Aos cinquenta anos, é muito mais velho do que a média dos pais de seus colegas na escola. “Nosso pai não fazia coisa alguma”, reclama Scout. Ele não joga bola, já é um pouco cego e usa óculos, não gosta de caçar, de beber ou de fumar.  Sua atividade principal? “Ele se sentava na sala de estar e lia”. Não tem como não simpatizar, não é?

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