[Dicas da Imensidão] Semana #2

Lixo Verdadeiro, primeiro conto de Dicas da Imensidão, de Margaret Atwood, já nos deixou animadas para o restante da leitura. E você, o que achou? Para a próxima semana, leremos o conto Bola de Cabelo, que acaba na página 58.

Por Mariane Domingos e Tainara Machado

O quanto o contexto social e os julgamentos morais inerentes à convivência em sociedade podem definir o destino de uma pessoa? No conto Lixo Verdadeiro, Atwood levanta essa questão a partir de uma trama que começa com um grupo de jovens e adolescentes e termina, dez anos depois, com revelações que, apesar de esclarecedoras, já não têm poder de mudança sobre as consequências desse passado.

A narrativa começa em um acampamento em que adolescentes abastados passam suas férias e jovens garotas, em sua maioria não tão privilegiadas, trabalham durante o verão para juntar algum dinheiro. Um ambiente de muitos contrastes, não apenas sociais, mas também de idade e gênero.

De idade, porque enquanto os hóspedes estão na fase da puberdade e das descobertas sexuais, os empregados do acampamento – as garçonetes e os monitores – já estão em uma etapa um pouco mais madura da juventude, em que os desejos esbarram nas responsabilidades.

A outra diferença gritante nesse contexto é a de gênero. As garçonetes, claramente, ocupam uma posição mais vulnerável do que a dos homens que convivem com elas no acampamento. Logo na primeira cena, os adolescentes espiam o banho de mar das garotas, enquanto elas se distraem lendo uma revista que ressalta, por meio de histórias de jovens abandonadas por homens canalhas, a mulher como uma figura fraca e suscetível às consequências de um mundo que permite a liberdade masculina, mas não tolera a feminina. Mais para frente, em um trecho em que é descrito o sentimento de uma das garçonetes ao ler as cartas que o namorado manda, desde seu posto de agente ferroviário, esse cenário da desigualdade de gênero é muito bem traduzido:

Joanne se ressente um pouco com o fato de que ele se derrame em elogios delirantes a lugares onde ela nunca esteve. Parece-lhe um caso típico de exibição masculina: ele está livre desimpedido.

Uma liberdade que falta àquelas garçonetes e a todas as mulheres. Liberdade para conhecer novos lugares, e não a mesma ilha todo verão. Liberdade para tomar um banho de mar sem ser alvo de olhares masculinos. Liberdade para se relacionar com os homens da mesma forma que eles se relacionam com as mulheres, sem logo ganhar adjetivações pejorativas. Liberdade para decidir os rumos da sua própria vida.

Lixo Verdadeiro é um conto em que essas questões transparecem em fragmentos. Cabe ao leitor escavar as camadas de sentido que Margaret Atwood sobrepõe ao avançar com a trama.

Voltamos para a cena em que as garçonetes do acampamento se banham, enquanto os adolescentes na ilha as espiam. As meninas leem em conjunto uma novela melodramática que termina com um fim que aponta para a redenção de uma forma triste: a jovem iludida por um galã engravida, é abandonada, mas seu outro pretendente aceita se casar com ela.

Na vida real, o destino é ainda menos generoso. Ronette, uma das garçonetes, se envolve com Darce, o monitor desejado por todas as meninas. Descobre por um dos garotos do acampamento, Donny, que, na sua ausência, Darce a chamava da vagabunda e abastecia os ouvidos alheios de intimidades trocadas entre os dois. O encontro fugaz entre Donny e Ronette, no qual essas revelações são feitas, acabará gerando uma gravidez indesejada, que Ronette prefere manter em segredo.

A banalidade desse enredo, contudo, esconde o poder narrativo de Atwood. Esses acontecimentos são descortinados ao leitor por meio de diálogos, fragmentos do cotidiano, que evidenciam o quanto decisões  significativas são tomadas por descuido, como parte do cotidiano, sem que haja muita reflexão.

Ronette, por exemplo, refuta imediatamente a ideia de um aborto, e se afasta da história. Para escapar da prisão dada pelo contexto social da época, com os julgamentos que emanam da sociedade por ser uma mãe solteira, o único caminho era a fuga. Anos mais tarde, sua amiga, Joanne, fará a seguinte reflexão:

E, afinal, o que foi feito de Ronette, que fora deixada para trás no passado, salpicada por seu chiaroscuro, manchada e santificada por ele, aprisionada pelos adjetivos de outras pessoas? O que ela anda fazendo, agora querido mundo segue seus passos.

A cultura e os valores da sociedade, mostra Atwood, servem como código que limita o livre arbítrio, apesar de estarem apoiados apenas em subjetividade. O que antes era um estigma deixa de ser considerado algo inusual.

Ridículo naquela época, mas possível nos dias de hoje. Nos dias de hoje você pode fazer qualquer coisa sem chocar ninguém.

A privação da liberdade, deixa claro Atwood, nem sempre depende de leis escritas ou do poder soberano do Estado. Juízos de valor a que todos somos expostos já nos colocam, sempre, numa espécie de gaiola.

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4 Comentários

  1. Marcella Viestel

    5 de junho de 2017 at 20:27

    Interpretação perfeita! Incrível que, mesmo passado tanto tempo (imagino eu que o conto seja de algumas décadas atrás), o julgamento social ainda é tão frequente e egoísta. A leitura nos leva a refletir como o nosso comportamento pode ser influenciado pela opinião alheia e como esta pode trazer consequências à vida do outro. Excelente conto! Adorei o livro e estou empolgada com a leitura, mas vou aguardo a leitura semanal para acompanhar as postagens do blog. Adorei! Obrigada 🙂

    • Mariane Domingos

      9 de junho de 2017 at 00:35

      Que bom que está gostando, Marcella! 🙂 A questão das consequências que as opiniões alheias podem trazer ao destino de cada um é mesmo muito inquietante. A vida em sociedade pode ser o céu ou o inferno…

  2. Lembrei muito Alice Munro, sem a pancada costumeira na boca do (nosso) estômago, sem a (nossa) identificação inconsciente com os personagens, mas com um olhar mais atento para a psique e a situação da mulher na sociedade. É isso?

    • Mariane Domingos

      9 de junho de 2017 at 00:42

      Muito bem observado, Aletheia! A abordagem da situação da mulher na sociedade lembra mesmo a obra de Alice Munro, conterrânea de Margaret Atwood. Embora a escrita de Munro seja ainda mais precisa (especialmente porque ela domina o gênero de conto) e seus personagens gerem ainda mais empatia (apesar de que, no conto que vamos resenhar amanhã, senti que Atwood evolui nesse sentido), as duas tem muitas similaridades na temática e no ritmo narrativo – sobreposição de cenas, oscilação temporal etc. Obrigada pelo comentário! 🙂

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