O ótimo prefácio da escritora Jhumpa Lahiri elevou nossas expectativas em relação a Laços, de Domenico Starnone! A sofisticação narrativa e a temática universal evidenciadas em sua análise já deram mostras nessa primeira parte do romance. O difícil é interromper a leitura, rs! Para a próxima semana, avançamos até a página 57.

Por Mariane Domingos e Tainara Machado

O início de Laços já é inquietante. A prosa de Starnone aguça a curiosidade, incomoda e envolve o leitor.

A história da família protagonista é introduzida pelas cartas da esposa a Aldo, o marido que a abandonou. Em pouco menos de vinte páginas, Starnone percorre com uma força narrativa admirável os vários estágios de uma separação dolorosa. Primeiro, as tentativas de compreensão. Em seguida, a raiva, o desespero e a apatia misturada à exaustão.

Assim como a autora das cartas, queremos entender o que aconteceu. Começamos desconfiados, com uma curiosidade mais racional, apenas buscando desvendar a trama. Mas, não demora muito, a angústia que transborda do relato da narradora nos contagia. Nem bem entrou na história, já sentimos um desafeto pela figura de Aldo.

Ele aparece como alguém egoísta, que não sabe bem o que quer e não hesita em afundar as pessoas próximas em sua confusão. Os trechos em que a esposa tenta encontrar uma explicação para a partida do marido trazem algumas reflexões interessantes que se aplicam a qualquer relação humana, não apenas ao casamento.

A teoria da narradora é que Aldo a deixou porque estava sufocado pela prisão que era o matrimônio. Sentia que tinha que buscar a liberdade perdida por um modelo social imposto:

Você me dá o exemplo da escadaria. (…) Nos mexemos acreditando que o movimento das pernas é nosso, mas não é, uma pequena multidão sobe com a gente aqueles degraus, e a ela nos adequamos: a segurança das pernas é apenas o resultado do nosso conformismo. Ou se muda o passo e se recupera a alegria do início – conclui -, ou nos condenamos à normalidade mais cinzenta.

Apesar de ser impossível não nos identificarmos com as verdades contidas nessa teoria, também é inevitável concordarmos com a narradora de que Aldo agiu de maneira irresponsável e caprichosa com esse despertar tão abrupto que ignorava uma realidade bem mais complexa do que uma simples “escadaria”. Era como se apenas ele tivesse o direito de buscar uma liberdade que, na verdade, faltava a todos:

Será possível que você não entende o peso que me deixou nas costas?

Esse formato epistolar, em que apenas um dos lados tem voz, dá um toque original à introdução. A narradora parece estar falando sozinha, o que intensifica o sentimento de abandono e a empatia do leitor.

As repostas do marido, às quais apenas podemos aludir, são sempre evasivas e confusas. A paixão inicial com que a narradora se entrega ao relato é minada, pouco a pouco, pelo desdém do interlocutor. A entrega e a verborragia do começo dão lugar à racionalidade e à impaciência. Na última carta dessa parte, a linguagem seca marca o cansaço de quem já não tem mais interesse em alongar a conversa:

Respondo às perguntas que você me faz.

Interessante observar também o ritmo que Starnone imprime nessa primeira parte da narrativa. Embora ela não ocupe mais do que vinte páginas do romance, é tão bem construída que notamos claramente a passagem do tempo (quatro anos entre a primeira e a última carta) e seu poder sobre os rumos de uma história e o amadurecimento dos personagens.

Estamos curiosas para saber o que vem em seguida: será que ouviremos a versão da história de Aldo? Será que o tempo vai avançar mais? Qual foi o destino dessa família?

Conte para nós suas primeiras impressões dessa leitura!

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