Neste fim de semana, deparei-me com dois conteúdos sobre dois gênios da literatura latino-americana. O primeiro é o artigo The Alienist, sobre Machado de Assis, publicado na revista The New Yorker e escrito pelo autor e crítico literário Benjamin Moser. O segundo é o documentário Gabo: a criação de Gabriel García Márquez (disponível no Netflix), que traz amigos, conhecidos e admiradores do escritor falando sobre sua vida pessoal e profissional. Tanto o artigo quanto o filme despertaram em mim uma reflexão: o que os leitores estrangeiros buscam na literatura da América Latina?

Em seu discurso do Prêmio Nobel de Literatura, Gabo disse:

É compreensível que insistam em nos medir com a mesma vara com que se medem, sem recordar que os estragos da vida não são iguais para todos, e que a busca da identidade própria é tão árdua e sangrenta para nós como foi para eles. (…)

A América Latina não quer nem tem por que ser um peão sem rumo ou decisão, nem tem nada de quimérico que seus desígnios de independência e originalidade se convertam em uma aspiração ocidental.

Sem dúvida, os ares caribenhos e as terras mágicas da literatura de Gabo foram o chamariz para seu sucesso internacional. No entanto, não acredito que o exotismo da vida tropical é o que tenha sustentado essa fama. Pelo contrário: o que lhe garante leitores mundo afora é a identificação imediata que seus personagens e histórias suscitam. Gabo sabia, como poucos, captar as belezas e as mazelas do humano.

Um dos depoimentos do documentário é do ex-presidente estadunidense Bill Clinton. Ele conta que não conseguia interromper a leitura de Cem Anos de Solidão. Chegou até a ser flagrado por um professor e, quando questionado sobre o que poderia ser mais interessante que a aula, ele respondeu:

Isto. É o melhor romance desde que William Faulkner morreu. Fala verdades eternas sobre a natureza humana, a motivação humana, como somos levados entre amor e ódio, ganância e generosidade, esperanças e medos.

Outro grande mestre nessa arte é o brasileiro Machado de Assis. Em artigo recente para The New Yorker, Benjamin Moser tenta desvendar por que, a despeito de sua genialidade, o autor ainda é pouco conhecido em outros países. Uma das razões que ele aponta é o fato de a literatura machadiana carecer dos estereótipos que estrangeiros tanto buscam e que, geralmente, os próprios brasileiros incentivam:

Esta pode ser uma das razões pelas quais Machado nunca ganhou outros países. Ele não estava interessado em folclore nacional e descreveu um ambiente não muito distante daquele da literatura de Henry James ou Edith Wharton. Seus livros estão quase que exclusivamente preocupados com o rico, mais ou menos ocioso, do Rio de Janeiro, e isso não era um Brasil que a maioria dos estrangeiros reconhecia.

Mesmo para um escritor brasileiro, o trabalho de Machado era estranhamente desprovido de cor local.

Machado nasceu e viveu em uma nação extremamente jovem, que não só conquistara sua independência há menos de 20 anos, mas o fizera em circunstâncias bastante particulares. Como evitar, então, as semelhanças com o ocidente colonizador?

O exotismo, especialmente cultural, que se se exige dos trópicos parece uma tentativa de negar um passado em comum, como se fosse possível que a identidade das antigas colônias tivesse seguido incólume a séculos de dominação. Como bem escreveu Moser, essa ligação é inevitável:

Apesar de séculos de esforços para valorizar seu exotismo, que os brasileiros geralmente encorajam, o Brasil sempre foi, para o melhor e para o pior, uma parte do Ocidente. Sócrates e La Rochefoucauld foram parte desse mundo; assim como os escravos na cozinha. 

Machado de Assis mostrou que a comédia humana é a mesma em qualquer lugar, e uma verdade universal é que, em conflitos entre o homem e a sociedade, a sociedade normalmente ganha.

Na sobrenatural Macondo ou no comum Rio de Janeiro burguês, o que encanta o leitor não é o exótico, mas sim a sensação de estar diante de um espelho. Gabo e Machado, cada um a seu modo, conquistam leitores pelo seu realismo, seja ele mágico ou não.

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
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