Notas de rodapé (página 24 de 29)

Lemos, gostamos (ou não) e indicamos (ou não). Aqui, colocamos nossas impressões sobre livros que, de alguma forma, nos marcaram. Tem opinião, mas não tem spoiler!

[Resenha] A Caixa-Preta

A troca de cartas é uma intimidade que se perdeu com o tempo. Em A Caixa-preta, o israelense Amós Oz resgata esse hábito para dar forma à história de uma separação que deixou cicatrizes e vítimas.

O livro começa com o pedido de socorro de Ilana à Alex Guideon, um professor famoso e rico, do qual se separou há sete anos e com o qual trocou apenas silêncio nesse período. Ilana pede que ele a ajude a encontrar Boaz, o filho do casal que está sumido, sem manter contato nem com ela, nem com seu atual marido, Michel Sommo.

É a correspondência entre esses quatro personagens e também Zakheim, o advogado de Alex, que dará forma à narrativa. A Caixa-preta é um livro impressionante não só porque Oz é capaz de imprimir um ritmo intenso à narrativa, com pequenas revelações a cada carta, mas também porque cada voz tem seu próprio estilo de escrita e suas idiossincrasias, com a construção de personagens complexos a partir de múltilplos pontos de vista, como um prisma.  

Leia mais

[Resenha] O Estrangeiro

Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Mãe morta. Enterro amanhã. Sinceros sentimentos.” Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.

Esse trecho, um dos mais famosos começos da literatura mundial, é um aperitivo da leitura de O Estrangeiro – romance de Albert Camus que surpreende pela naturalidade com que os acontecimentos mais bizarros e improváveis são conduzidos.

A história se passa na Argélia, quando o território ainda era colônia francesa. O narrador e personagem principal é Mersault, um homem de poucas palavras e cuja objetividade se confunde com seu comportamento frio.

O início é um relato minucioso do enterro de sua mãe, na cidade de Marengo, onde ela estava internada há tempos em um asilo. Ao contrário do que se espera em uma situação de luto, as descrições de Mersault são muito mais resultado de suas experiências sensoriais, sobretudo com o clima cálido da região, do que de seus sentimentos:

Leia mais

[Resenha] Solar

A constatação de que o mundo está cada vez mais quente e que o planeta está ameaçado pode suscitar comoção e interesse em muitas pessoas, mas não em Michael Beard, o chefe do Centro Nacional de Energia Renovável e personagem principal de Solar, excelente romance de Ian McEwan.

O inglês não costuma ser muito generoso com seus personagens. Beard é um típico anti-heroi.  Ganhou o prêmio Nobel de Física pela Conflação Beard-Einstein há mais de duas décadas, por uma confluência de fatores em que seu talento não necessariamente teve grande peso. Desde então, “aspergido com o pó mágico de Estocolmo”, leva uma vida fácil de  palestras, conferências e pareceres, como descreve McEwan com a ironia que caracteriza seu estilo ácido de escrita:

Uma coisa era certa: duas décadas haviam transcorrido desde que pela última vez sentara sozinho e em silêncio por horas a fio, com um lápis e um bloco nas mãos, para pensar, para examinar uma hipótese original, para brincar com ela, estimulá-la a ganhar vida própria.

Leia mais

[Resenha] Dois Irmãos

Uma briga entre irmãos que nem a distância Manaus-Líbano é capaz de apaziguar. O escritor Milton Hatoum parte desse conflito para desenvolver um romance que esconde, sob a estrutura aparentemente banal de drama familiar, uma crítica social ainda hoje pertinente. Dois Irmãos já foi publicado em mais de dez países e é considerada uma das melhores obras brasileiras dos últimos quinze anos.

Yaqub e Omar são gêmeos, filhos do casal Zana e Halim, ambos de origem libanesa. Nascidos em Manaus, os dois foram criados sob a superproteção da mãe, que sempre teve uma predileção clara pelo caçula Omar. Ainda na adolescência, começa a história de rancor entre os irmãos. A disputa por Lívia, a sobrinha aloirada dos Reinoso, vizinhos da elite manauara, começa em uma noite de cinema na casa de Estelita, a tia da garota. Enciumado com a aproximação de Yaqub e Lívia, Omar revela seu caráter explosivo e fere com uma garrafa estilhaçada o rosto do irmão:

A cicatriz já começava a crescer no corpo de Yaqub. A cicatriz, a dor e algum sentimento que ele não revelava e talvez desconhecesse.

Leia mais

[Resenha] Sempre em Movimento

No começo do ano passado, quando soube que um câncer descoberto nove anos antes tinha progredido para um estágio terminal, o escritor e neurocientista Oliver Sacks não procurou esconder a notícia. Sua reação foi a mais genuína possível para uma vida inteira dedicada à ciência e à escrita: Sacks publicou um artigo muito sereno para o The New York Times, do qual era um colaborador frequente, falando sobre sua doença, suas preocupações, agradecimentos e sua disposição para continuar vivendo da melhor – e mais intensa – forma possível até o fim. 

Em Sempre em Movimento, sua autobiografia lançada no ano passado pela Companhia das Letras, vemos que Sacks tinha, de fato, muito a agradecer. Com sua impressionante curiosidade intelectual e um espírito aventureiro que pouco se encaixam à visão que temos de um neurologista, Sacks viveu uma vida intensa, no qual colecionou paixões, amizades, livros, pacientes e, claro, leitores.

Leia mais

Posts mais antigos Post mais recentes

© 2026 Achados & Lidos

Desenvolvido por Stephany TiveronInício ↑