[Divã] Leitores solitários?!

Ler é a expressão da solidão ou uma forma de escapar dela? Desde que começamos o Achados & Lidos, há mais de um ano, venho pensando sobre isso. A comunidade de leitores que encontramos nessa jornada me faz, cada vez mais, achar que a leitura é uma atividade menos solitária do que parece.

Abrir um livro em público pode causar diversos efeitos. O mais comum, infelizmente, ainda são os olhares reprobatórios quanto às habilidades sociais do “solitário leitor”. Quem já experimentou negar um convite para sair porque prefere ficar em casa lendo ou sentou à mesa de um café apenas na companhia de um livro sabe do que falo. Somos vistos como seres antissociais que se escondem atrás das páginas para evitar contato, como este personagem de Alan Pauls, no romance História do Dinheiro:

Levou algo para ler. Gosta desse escudo de arrogante indiferença que os livros interpõem entre ele e o mundo, em especial quando detecta por perto um desses agitadores de filas que bufam, levantam os olhos cansados para o céu, queixam-se buscando cumplicidade (…).

Livros se tornaram sinais de uma solidão requerida. Curioso pensar nisso em tempos em que as pessoas, mesmo acompanhadas, se afundam nas telas de seus smartphones. A experiência proporcionada por um livro me parece bem menos indiferente e arrogante do que a troca vazia proposta pelo mundo virtual. Ainda assim, uma pessoa sozinha com um celular é mais bem aceita socialmente do que um leitor solitário.

A expressão “leitor solitário”, aliás, não faz muito sentido para quem tem o hábito da leitura. Personagens, histórias e até mesmo os escritores são como companhias, por vezes muito mais presentes do que aquelas que nos rodeiam. A literatura é capaz de nos transportar para outras realidades sem, no entanto, nos alienar do mundo em que vivemos.

A comunidade que se cria a partir da leitura é outro argumento que contraria a ideia de solidão. No ensaio Qual é a importância?, da coletânea Como Ficar Sozinho, Jonathan Franzen resume bem o tema:

Eu não costumava confiar nos cursos de escrita criativa por me passarem a ideia de uma segurança artificial, da mesma maneira que desconfiava de sociedades literárias por tratarem a literatura como uma verdura que só precisa de uma colher de socialização para ser engolida. À medida que busco meu próprio sentido de comunidade, desconfio um pouco menos de ambos. (…) Hoje, a distância entre o autor e o leitor está encolhendo. Em vez de figuras olímpicas falando de cima para baixo com as massas, temos dispersões idênticas. Leitores e escritores estão juntos na necessidade de solidão, na busca de substância numa época de crescente desilusão: nos íntimos desígnios de encontrar, através da letra impressa, uma saída para solidão.

Todas as experiências literárias que o blog tem me proporcionado – comentários em nossas publicações, as reações aos livros que resenhamos, os agradecimentos por uma indicação certeira, sugestões de leituras, a mobilização em torno do Clube do Livro – me fazem concordar com Franzen. De alguma forma, como leitora, também estou em busca do meu “próprio sentido de comunidade”.

Em um dos meus livros favoritos, A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, a personagem Tereza é uma dessas leitoras que se comunica a partir da suposta solidão da leitura. No seu primeiro encontro com Tomas, é um livro que chama sua atenção:

E mais uma coisa: havia um livro aberto sobre a mesa. Naquele café, ninguém jamais abrira um livro sobre a mesa. Para Tereza, o livro era sinal de reconhecimento de uma irmandade secreta.

Irmandade secreta, clube de leitura, blogs, comunidades ou sociedades literárias – chame como quiser. Impossível estar sozinha na companhia de um livro. Não bastassem os personagens que saem das páginas para nos acompanhar, ainda temos um mundo de leitores com quem compartilhar as riquezas da literatura. Não ler: isso sim é solidão.

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
Mariane Domingos

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2 Comentários

  1. Mariane,
    Concordo plenamente com você.
    Não me sinto só quando estou com um livro, pelo contrário, mergulho na estória e vivo por alguns instantes naquele mundo, na companhia daqueles personagens.
    Assino a TAG Experiências Literárias e como vocês devem saber, agora só temos edições exclusivas. Então, é fácil identificar outro associado quando o encontramos com o livro na mão. Outro dia vi no metrô uma pessoa com uma edição da TAG e senti como se aquela pessoa fosse “conhecida”, um dos meus…rsrsrsrs Quando vejo alguém lendo em qualquer lugar, já sei que tenho alguma afinidade com aquela pessoa. Como se sentir só assim? Impossível! 😉

    • Mariane Domingos

      31 de agosto de 2017 at 23:56

      Oi, Lorena! Obrigada pelo comentário. Bom saber que tem mais gente que se sente bem acompanhada por livros, rs.

      Há alguns meses também me rendi à “irmandade” da Tag Livros! Está sendo uma experiência muito divertida – o suspense da obra escolhida, a espera da caixinha e essa ideia de fazer parte de um clube.

      Tenho essa mesma sensação de proximidade quando vejo alguém lendo o mesmo livro que eu ou até mesmo um título que gosto muito. Tenho vontade de abordar a pessoa e começar a conversar, haha. Escrevi sobre isso em um post mais antigo desta seção Leitor no Divã. Caso se interesse, é este o link. 😉

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