“Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” Será que a arte segue a máxima de Lavoisier? Recentemente, tive uma ótima (e produtiva!) discussão entre amigos sobre esse tema, e resolvi trazê-lo para o blog.

Quantas adaptações – musicais, cinema, teatro – você já viu de Os Miseráveis, de Victor Hugo? E de Romeu e Julieta? Quais histórias habitam tanto a sua estante de livros quanto sua prateleira de DVDs? O intercâmbio entre a literatura e outras formas de arte não é incomum. Embora os resultados nem sempre sejam satisfatórios (sou do time que sempre prefere o livro), há diversas adaptações bem-sucedidas.

Quando falamos de cinema, e ainda mais de televisão, essa troca desempenha um importante papel na popularização de obras literárias e no incentivo à leitura. No entanto, alguns limites têm que ser observados, para que a referência não se perca em algum momento. Afinal, é tênue e bastante delicada a linha que separa as releituras dos plágios.

As adaptações homônimas dificilmente correm esse risco, porque deixam clara sua referência, desde o título até os créditos à obra e ao autor. Já as releituras que gozam de um pouco mais de liberdade podem tornar essa referência um tanto turva.

Não são poucas as histórias de novelas, séries e filmes que beberam na fonte shakespeariana trágica do casal apaixonado que não pode ficar junto porque suas famílias são rivais. Ou então, um exemplo bastante atual, a novela das 9h da Rede Globo, O Outro Lado do Paraíso, cuja trama de vingança é uma releitura de O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas. Até que ponto tais produções têm colaborado para expandir o alcance da literatura, quando não deixam clara essa ligação? Por mais que várias das obras mencionadas acima sejam de domínio público, ou seja, não têm restrição de uso, é válido sublinhar que essa condição não elimina a necessidade de citar o autor.

Uma das releituras que mais me impactaram nos últimos tempos foi Enclausurado, de Ian McEwan. Na orelha do livro e na epígrafe, já ficamos sabendo da relação da obra com Hamlet. Muito mais que posicionar a tragédia shakespeariana nos dias atuais, McEwan trouxe novas cores à história em uma trama bastante inventiva e bem executada. Terminei o livro e já acrescentei Hamlet à minha lista de leituras. Ponto para McEwan: criou um romance sofisticado, popularizou um clássico e incentivou a leitura.

Adaptações não precisam, ou melhor, não devem pressupor a comodidade de um enredo já consagrado. A literatura por si só abre um mundo de interpretações. Cada leitor, uma leitura. Mais do que se prender a um roteiro pronto, o artista que se propõe a adaptar uma obra tem que estar preparado para interpretá-la, e não copiá-la. Na maioria das vezes, é um projeto arriscado, mas quando dá certo, temos, seguindo o léxico de Lavoisier, aquele tipo de transformação que oxigena a literatura e, portanto, é muito bem-vinda.

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
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