[O Mestre e Margarida] Semana #3

Quem apostava em um romance de muita reflexão e pouca ação se surpreendeu na leitura da última semana! Para a próxima sexta, avançamos até a página 90 (capítulo 8).

Por Mariane Domingos e Tainara Machado

A morte horrível de Berlioz acelerou o enredo de O Mestre e Margarida. Decapitado por um bonde em alta velocidade, o fim do editor foi ainda mais macabro, porque o Diabo, na figura do estrangeiro intrometido, havia premeditado alguns detalhes da tragédia minutos antes.

O acidente ocorre justamente quando os dois amigos tentavam se livrar da companhia, cada vez mais inconveniente e assustadora, do professor. Quando os amigos começam a questionar a veracidade da história que acaba de narrar, sobre a condenação de Jesus, ele revela que seu relato é cheio de certeza, porque ele havia presenciado o episódio:

– O caso é que… – daí o professor lançou um olhar temeroso ao redor e passou a falar aos sussurros – eu presenciei tudo isso em pessoa. Estive no balcão com Pôncio Pilatos, no jardim, quando ele falou com Caifás, e no tablado, só que em segredo, incógnito, como dizem, então lhes peço que não digam palavra a ninguém, e guardem o mais absoluto segredo! Psiu!

É muito interessante como Bulgákov constroi o personagem do Diabo. O tom misterioso e o sarcasmo, aliado aos trejeitos bastante humanos, trazem humor e suspense ao enredo. Ele diz tudo pelas entrelinhas e exige do leitor não apenas atenção, mas também uma bagagem cultural, especialmente sobre religião, para entender todas as referências, como essas do trecho acima.

Tudo que nós, leitores, não queremos é ter a mesma ingenuidade de Berlioz e Bezdômny. Enquanto eles se acham no controle – situação que fica evidente quando o Bulgákov dramaturgo mergulha nos pensamentos da dupla -, quem os manipula, na verdade, é o Diabo. E o curioso é que sua estratégia consiste em dizer apenas verdades, que de tão diretas e absurdas são vistas como loucuras de um velho senil.

A morte de Berlioz, no entanto, põe um fim nessa incredulidade. O poeta Bezdômny não demora muito a ligar os pontos e perceber que as previsões certeiras do professor estrangeiro sobre o fim trágico do amigo não poderiam ser por acaso. Não à toa, esse capítulo em que o Diabo faz, de forma indireta, a revelação de sua identidade e o editor cumpre sua profecia é intitulado “A Sétima Prova”.

Em busca de explicações sobre a ligação do estrangeiro louco e a morte do amigo, o poeta sai em uma perseguição frenética ao Diabo e seus comparsas. Em um trecho que mistura muita ação a um belo passeio por Moscou, vários fatos bizarros têm lugar.

Bezdômny nota que o professor – ou o Diabo – agora está acompanhado de um regente com óculos pincenê e, mais surpreende ainda, de um gato negro e gordo, que se movimentava apoiado apenas nas patas traseiras. A partir daí, a perseguição ganha toques surrealistas: Bezdômny percebe instintivamente para onde precisa se direcionar para encontrar o professor, e os lugares para onde se encaminha lembram sempre o inferno: são quentes, abafados, escuros.

Aos poucos, ele vai recolhendo objetos que o vão transfigurar, como um ícone de papel e uma vela. Depois de mergulhar em um lago e ter suas roupas roubadas, são apenas esses objetos e uma ceroula velha que lhe sobrarão como vestimenta para vagar por Moscou.

Neste vai e vém de acontecimentos, o leitor tenta se adaptar e ler nas entrelinhas os significados dos lugares, dos objetos e dos personagens que são colocados em cena, nem sempre com sucesso. O efeito que a leitura causa é de choque e estranhamento. Os estilos, situações e personagens mudam em ritmo quase frenético, como quando a cena deixa de lado a perseguição de Bezdômny e passa a se concentrar na casa Griboiêdov, um retiro de escritores que faz uma forte crítica aos artistas seduzidos pelo poder do regime soviético.

Qualquer visitante, desde que não fosse, naturalmente, uma besta, ao ir parar na Griboiêdov percebia imediatamente como era boa a vida dos felizes membros da Massolit, e uma inveja negra começava a diracerá-lo sem demora. E sem demora ele dirigia aos céus amargos reprocher por não ter sido agraciado com talento literário de nascença, sem o que, naturalmente, não havia nem como sonhar em possuir a carteira de membro da Massolit – castanha, cheirando a couro caro, com uma faixa dourada larga, uma carteira que toda Moscou conhecia.

Bulgákov não poupa a elite literária moscovita ao descrever a luta por um lugar na varanda, as refeições bem servidas e outros caprichos do clube. Quando os escritores descobrem que Berlioz está morto, há uma comoção para saber como ele será enterrado, e com quais honras.

O momento só é interrompido pela chegada de Bezdomny, vestido como um fantasma, segurando a vela de núpcias. Ao chegar à residência dos escritores, ele denuncia a morte do editor pelo “consultor estrangeiro, professor e espião”, mas ninguém lhe dá ouvido. Assim, mais um personagem sai de cena, levado como louco.

Estão gostando do vertiginoso ritmo da narrativa de Bulgákov? Contem para gente nos comentários!

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2 Comentários

  1. Olá!
    Descobri seu blog hoje.
    Comentários sobre o livro O Mestre e Margarida me chamaram atenção.
    Um livro esplêndido que é pouco lembrado.
    Amei quando o li há alguns anos.
    Obrigada.
    Parabéns!

    • Mariane Domingos

      2 de agosto de 2018 at 00:42

      Olá! Bem-vinda ao Achados & Lidos! 🙂 Estamos gostando bastante da leitura de O Mestre e Margarida. Saboreá-lo aos pouquinhos no nosso Clube do Livro está sendo uma ótima experiência. Obrigada pelo comentário!

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