Em 1551, o rei português dom João III, e sua mulher, Catarina d’Áustria, decidiram oferecer um presente inusitado ao arquiduque Maximiliano II, por seu casamento com a filha do imperador Carlos V: um elefante.

A história real do mamífero que saiu de Goa, passou por Portugal, Espanha, Itália, atravessou os Alpes para enfim chegar na Áustria ganha ares de fábula nas mãos de José Saramago, em A Viagem do Elefante (Companhia das Letras, 260 páginas).

Confesso que o enredo, normalmente, não atrairia minha atenção, mesmo sendo uma obra do consagrado autor português, de quem gosto muito, embora ele tenha aparecido pouco aqui no blog. Mas, em um aeroporto, acabei seduzida pela caligrafia de Wagner Moura, que assinou a capa para a edição especial vendida exclusivamente pela Livraria Saraiva.

O livro não tem, é fato, o brilho de outros títulos do autor, especialmente de Ensaio Sobre a Cegueira, obra-prima de Saramago por sua excelente crônica da humanidade – ou da falta dela. O próprio Saramago já chegou a afirmar que, mais do que um romance, A Viagem do Elefante é um conto, já que lhe falta os conflitos, as crises e até mesmo as histórias de amor.

A linguagem normalmente seca de Saramago dá lugar, nesta obra, a uma prosa quase lírica, que nos remete às grandes epopeias literárias, mas de forma sempre bem humorada. Como sempre, é a natureza humana que interessa a Saramago, dessa vez narrada  pelos olhos de Salomão, o elefante, e pela voz de Subhro, o conarca, nome dado a quem conduz e adestra esses grandes mamíferos.

Entre mandos  e desmandos de reis e arquiduques, Salomão e Subhro não têm nenhum controle sobre seus destinos. Se lhes é ordenado que atravessem os oceanos, assim é feito. Se lhes é mandado atravessar metade da Europa, enfrentando de tempestades a nevascas, assim a viagem prossegue. Se lhes é dito para que mudem de nome, passando a ser conhecidos pela alcunha de Solimão e Fritz, também não há escapatória.

De onde emana esse poder quase divino? O conarca, personagem mais interessante do livro, pensa nisso diversas vezes ao longo deste romance. A certa altura, quando desembarca no porto de Gêneva, reflete:

Quando montava o salomão, a subhro sempre lhe havia parecido que o mundo era pequeno, mas hoje, no cais do porto de génova, alvo dos olhares de centenas de pessoas literalmente embevecidas pelo espectáculo que lhes estava sendo oferecido, quer com a sua própria pessoa quer com um animal em todos os aspectos tão desmedido que  obedecia às suas ordens, fritz contemplava com uma espécie de desdém a multidão, e, num insólito instante de lucidez e relativização, pensou que, bem vistas as coisas, um arquiduque, um rei, um imperador não são mais do que conarcas montados num elefante.

Em entrevista ao Jornal de Notícias, Saramago resumiu a viagem do elefante, que ele descobriu meio sem querer de passagem por Viena, como uma metáfora da vida humana, especialmente por seu fim triste, em que as partes do animal viraram objetos comuns, como um porta guarda-chuva, rendendo nenhuma homenagem àquele que caminhou milhares de quilômetros por capricho dos governantes:

“Quando uma pessoa se põe a pensar no destino do elefante – que, depois de tudo aquilo, acaba de uma maneira quase humilhante, aquelas patas que o sustentaram durante milhares de quilómetros são transformadas em objectos, ainda por cima de mau gosto – no fundo, é a vida de todos nós. Nós acabamos, morremos, em circunstâncias que são diferentes umas das outras, mas no fundo tudo se resume a isso”. 

Viagem do Elefante também nos faz pensar sobre as fontes de inspiração dos escritores. Por vezes, se baseiam na experiência, como acontece com frequência com Gabriel García Márquez. Em outros casos, é a pesquisa histórica que dita a narrativa, como em O Homem que Amava os Cachorros, de Leonardo Padura. Neste caso, Saramago esbarrou com a história por acaso, em uma viagem, e praticamente não encontrou registros históricos dessa aventura. Inventou, então, tudo, mostrando que, para os grandes escritores, a inspiração pode estar em qualquer lugar.  

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