… evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesmo é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me a tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.

Esse é um trecho do prólogo de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Escolhi um representante emblemático para abrir esta reflexão que pretende adentrar os meandros de uma relação duradoura e prolífica: a da literatura com a memória.

Machado de Assis deu provas de sua genialidade ao conceber um romance narrado por um “defunto autor”. De sua própria cova, Brás Cubas relembra a história de sua vida, escrevendo-a com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”.

Embora Machado tenha alçado as narrativas que se apoiam na memória a um patamar talvez inalcançável, não são poucas as obras que se lançam nessa direção.

Assim Começa o Mal, do espanhol Javier Marías, é um bom exemplo de uma trama instigante que nasce a partir da capacidade humana de lembrar, esquecer e inventar. Logo no primeiro parágrafo, o narrador Juan de Vere diz:

Não faz muito tempo que aquela história aconteceu – menos do que costuma durar uma vida, e quão pouco é uma vida quando ela já está terminada e já se pode contá-la em poucas frases e só ficam na memória cinzas que se soltam à menor sacudida e voam à menor lufada (…).

O personagem trava, ao longo de todo romance, uma luta íntima na busca pela verdade de situações que ele mesmo vivenciou há décadas. Um embate difícil, porque, conforme esse início apregoa, a passagem do tempo é inclemente ao forjar as lembranças.

No romance História do Dinheiro, do argentino Alan Pauls, mais um mestre da memória na literatura, há um trecho que traduz, de maneira lírica e bastante precisa, a subjetividade que envolve o transcorrer do tempo e, por conseguinte, as recordações:

Às vezes, quando era bem pequeno, intrigado pela forma como quinze minutos de relógio podem passar em câmara lenta ou como um suspiro, conforme o momento do dia, as circunstâncias, as pessoas com quem está, o clima, a luz, o estado de espírito, os afazeres que o esperam ou o que deixou para trás, dá de pensar que o tempo talvez não seja absolutamente universal, mas o cúmulo do específico, uma espécie de bem endêmico que cada família e cada casa e até cada pessoa produzem à sua maneira, com métodos, critérios, instrumentos próprios, e produzem no sentido mais literal da palavra, investindo força física, trabalho, matérias-primas, tudo o que a consistência evanescente do tempo pareceria, antes, tornar desnecessário, como se fosse mais um artesanato do que esse transcorrer esquivo que todos repetem que é.

A memória, enquanto produto do tempo, está sujeita às nuances dessa subjetividade. Os fatos, quando relatados, tornam-se mais experiências que fatos, pois o ato de contar é imbuído de perspectiva. Quando somamos a essa fórmula a passagem do tempo, o resultado é uma variedade ainda maior de percepções, já que o indivíduo que recorda não é o mesmo que viveu o fato. O tempo multiplica as perspectivas. A distância entre a experiência e a lembrança guarda uma infinidade de histórias e sentimentos que tornam a memória um terreno extremamente fértil para literatura. Em um excerto de Assim Começa o Mal, o personagem Juan de Vere traz à tona essa reflexão, ao revirar algumas fotos antigas:

É uma demonstração de que quando o tempo passa todo real adquire um aspecto de ficção, será essa a sina de nossos retratos quando nos afastarmos, parecer gente inventada, que nunca existiu.

A memória, mesmo sem ganhar as páginas de um romance, já se aproxima da ficção. Quantas vezes nos pegamos colorindo lembranças ou preenchendo espaços vazios da memória com invenções que juramos verdadeiras? No livro Homens Imprudentemente Poéticos, do português Valter Hugo Mãe, há um trecho que diz:

A memória era o resto da realidade. Uma sobra que mutava para a ilusão com facilidade.

Os escritores de ficção que se apercebem dessa premissa e se propõem a trabalhar no espaço de mutação que é a memória têm grandes chances de desenvolver personagens e narrativas marcantes. Dosar a vulnerabilidade e a credibilidade da memória, contrapondo a dúvida “será que isso de fato aconteceu?” à certeza de “sem dúvida, isso aconteceu”, é uma estratégia para uma narrativa de sucesso. Mais uma vez, recorro à genialidade de Machado de Assis para exemplificar a questão. O que seria de uma obra como Dom Casmurro não fosse a habilidade machadiana de posicionar a trama no tal “resto de realidade” que é a memória?

Em entrevista recente ao Achados & Lidos, Victor Heringer, autor de O Amor dos Homens Avulsos, outro representante emblemático do tema, disse:

A memória está sujeita a nossas flutuações de humor e opinião, o lugar em que estamos, os traumas etc. E é a partir dela que criamos nossa autoimagem. Num relato escrito, a coisa fica ainda mais complicada, porque ele está submetido aos caprichos da língua e da comunicação.

Essa complicação a que alude Heringer é justamente uma das belezas do casamento entre memória e literatura. Acrescentar à subjetividade das lembranças a artificialidade da linguagem é reforçar o limite tênue da memória e da verdade. Os escritores podem se munir de todos esses “caprichos” para desenhar um cenário em que o leitor vê o relato de uma vida se desenrolando nas páginas sem se dar conta de que o esquecimento e a perspectiva passaram por ali. James Wood, no livro Como Funciona a Ficção, ao refletir sobre realismo e verdade, escreve:

E em nossa vida de leitores diariamente encontramos aquele rio azul da verdade, serpenteando em algum lugar; topamos com cenas, momentos e palavras encaixados com perfeição na prosa e na poesia, no cinema e no teatro, que nos surpreendem com sua verdade, que nos comovem e nos sustentam, que abalam o edifício do hábito até os alicerces (…).

A literatura que se apoia na memória desenha, com maestria, esse “rio azul da verdade” que hipnotiza a todos nós, leitores. Avançamos avidamente pelas páginas desses romances certos de que encontraremos o momento em que o narrador irá se trair e entregar a falibilidade de suas lembranças. Mas a verdade é que, a cada trecho, estamos mais presos à teia, inventiva ou não, da memória.

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
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