Feriado prolongado é sinônimo de muita leitura! Esta lista é para você que está procurando dicas do que levar na mala ou uma companhia para dias tranquilos em casa. Do clássico ao contemporâneo, da poesia ao romance, temos opções para todos os gostos.

1. A Dama do Cachorrinho e Outros Contos, de A. P. Tchekhov: o mestre russo Tchekhov – diferente de seus compatriotas Tolstói e Dostoiévski, que confirmaram seu talento em longas novelas – dominava a arte dos contos. Sua narrativa concentra os grandes problemas humanos e o desencanto que é estar no mundo em textos breves, densos de significados e dotados de uma força extraordinária.

Nessa coletânea, estão 36 de seus melhores contos, traduzidos, nessa versão da Editora 34, diretamente do russo por Boris Schnaiderman. “A Dama do Cachorrinho”, que dá título ao livro, é o meu favorito e conta a história de um caso de adultério entre um banqueiro russo e uma jovem que ele conhece durante as férias:

Uma experiência variada, realmente amarga, ensinara-lhe, havia muito, que toda aproximação, a qual constitui a princípio uma variação tão agradável na vida e apresenta-se como uma aventura ligeira e aprazível, converte-se invariavelmente, em se tratando de pessoas corretas, especialmente moscovitas, indecisas e pouco dinâmicas, num verdadeiro problema, extraordinariamente complexo, e a situação, por fim, torna-se verdadeiramente difícil. Mas, a cada novo encontro com uma mulher interessante, essa experiência escapava-lhe da memória, vinha-lhe uma vontade de viver, e tudo parecia simples e divertido.

2. A História dos Meus Dentes, de Valeria Luiselli: a escritora mexicana tem um texto delicioso e uma narrativa tão inventiva que deixa o leitor hipnotizado. A partir da história do leiloeiro Gustavo Sánchez-Sánchez (Estrada), Luiselli aborda de maneira concreta um tema bastante abstrato: o valor inconstante dos objetos. Estrada é um personagem espirituoso, que arranca boas risadas e reflexões:

Há homens com sorte e há homens com carisma. Eu tenho um pouco dos dois. Meu tio Solón Sánchez Fuentes, vendedor de gravatas italianas de qualidade, dizia que a beleza, o poder e o sucesso prematuro se evaporam e são uma carga pesada para quem os possui, porque a perspectiva de perdê-los é um fardo que pouca gente pode suportar. Esse tipo de preocupações não me aflige porque nunca tive qualidades efêmeras. Só as permanentes.

Luiselli é uma autora jovem que vem se firmando entre os nomes de destaque da nova geração de escritores latino-americanos. Se quiser saber mais, já resenhamos esse livro por aqui. Vale a pena conhecer!

3. O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald: quer um feriado glamoroso, com uma história de amor daquelas que ganham as telonas do cinema? Então, aposte nessa obra-prima do americano F. Scott Fitzgerald!

Ele escreveu o romance durante sua estadia em Paris, para onde, na mesma época, se mudaram Ernest Hemingway e Gertrude Stein, todos representantes da “geração perdida” da literatura americana. Essa turma, aliás, foi muito bem retratada no filme Meia-noite em Paris, de Woody Allen.

Egresso da classe média alta, Fitzgerald usou sua própria experiência para fazer de O Grande Gatsby uma crítica contundente ao materialismo. Jay Gatsby, o personagem central, é um milionário cheio de mistérios, capaz de cometer loucuras pela fútil Daisy Buchanan, esposa do autoritário Tom Buchanan. As festas suntuosas, as paixões e os luxos disfarçam o vazio e a ambição que habitavam as mansões nos Hamptons.

Quem conduz a narrativa é Nick Carraway, primo de Daisy, que, enquanto tenta se adaptar àquele meio que não era o seu, descobre a superficialidade das relações humanas pautadas pela falsidade e pelo dinheiro:

O interesse de Tom e Daisy me enterneceu e fez com que ambos me parecessem menos remotamente ricos – ainda assim, eu estava confuso e um tanto indignado ao partir. Na minha opinião, Daisy devia fugir daquela casa com a filha nos braços – mas, pelo visto, ela não tinha a menor intenção de fazê-lo. Quanto a Tom, o fato de ele ter “arrumado uma namorada em Nova York” era menos surpreendente do que ele ter se deixado abalar por um livro. Por algum motivo, Tom andava flertando com ideias rançosas, como se a vaidade física já não alimentasse seu coração despótico.

Ah, e essa dica é ótima, porque ainda dá para fazer a dobradinha literatura e cinema no feriado. Minha versão preferida é a que tem Robert Redford no papel de Gatsby, mas a adaptação mais recente, com Leonardo di Caprio interpretando o milionário, também é imperdível!

4. [poemas], de Wisława Szymborska: a linguagem simples e a construção de versos extremamente cuidadosa são as marcas dessa polonesa Nobel de Literatura. Impossível passar por seu versos sem lê-los uma, duas, três vezes e se encantar em todas elas.

Seu estilo único comporta desde temáticas mais pesadas, como política e guerra (o poema “Fim e começo” é brilhante), até situações cotidianas. “Escrevendo um Currículo” é o meu favorito dessa coletânea, justamente por essa capacidade de extrair o lírico de um momento banal, estimulando reflexões que se perderam na engrenagem do hábito:

O que é preciso?
É preciso fazer um requerimento
e ao requerimento anexar um currículo.

O currículo tem que ser curto
mesmo que a vida seja longa.

Obrigatória a concisão e seleção dos fatos.
Trocam-se as paisagens pelos endereços
e a memória vacilante pelas datas imóveis.

De todos os amores basta o casamento,
e dos filhos só os nascidos.

Melhor quem te conhece do que o teu conhecido.
Viagens só se for para fora.
Associações a quê, mas sem por quê.
Distinções sem a razão.

Escreva como se nunca falasse consigo
e se mantivesse à distância.

Passe ao largo de cães, gatos e pássaros,
de trastes empoeirados, amigos e sonhos.

Antes o preço que o valor
e o título que o conteúdo.
Antes o número do sapato que aonde vai,
esse por quem você se passa.

Acrescente uma foto com a orelha de fora.
O que conta é o seu formato, não o que se ouve.
O que se ouve?
O matraquear das máquinas picotando o papel.

Maravilhoso, não?

5. Refrão da fome, de J. M. G. Le Clézio: se O Africano tinha o pai do escritor como referência, Refrão da Fome é inspirado em sua mãe. O livro traz a história de Ethel, uma garota de família burguesa na bela Paris, que vê suas fantasias infantis desmoronarem pela brutalidade de um dos períodos mais sombrios da humanidade – a Segunda Guerra Mundial:

Estaria o mundo atacado de uma verdadeira doença? Aquele calafrio, aquela náusea, aquilo vinha de muito longe, de tempos muito remotos.

A narrativa traz, a partir da escrita lírica de Le Clézio e de suas habilidades de grande romancista, temas como o racismo e a xenofobia, infelizmente ainda tão presentes na Europa. Mais do que a falta de alimento, a “fome” que aparece no título é a carência de esperança e o desamor dos tempos de guerra.

E você, o que pretende ler no feriado? Conte para nós!

Mariane Domingos

Mariane Domingos

Jornalista formada pela ECA-USP, prefere caligrafia à tabuada, não acredita no ditado “uma imagem vale mais que mil palavras” e tem dificuldades para se controlar em livrarias (especialmente nas que vendem também papelaria).
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